Alastramento


exposição coletiva de artistas-cidadãos de Belém do Pará
curadoria Camila Fialho e Véronique Isabelle 
Ateliê397, São Paulo/SP, 2015. 


Durante o debate sobre espaços independentes e a cena cultural de Belém, conduzido por integrantes da Associação Fotoativa (PA), Ateliê397 (SP), Atelier do Porto (PA) e Gotazkaen (PA), como parte do projeto “Circuito independente: aproximações possíveis entre Belém e São Paulo”, foi apontado um modus operandi particular a alguns artistas cujo fazer se dá numa trama subterrânea que se torna visível somente quando brota para fora da terra, seja em obras, seja no território sensível do Outro. Alastramento delineia-se a partir dessa ideia de artista-cidadão cuja atuação também se situa na diluição de fronteiras entre a arte e o cotidiano, o sentir, o atuar, o expressar-se e o compartilhar experiências. Percorrendo as complexas paisagens que compõem a urbe amazônica, passando pelos campos do sensível, do corpo-paisagem e das margens da cidade, a exposição propõe um ambiente propício à propagação de ideias e contaminações através da experiência, onde o fazer de um desponta no fazer do outro.

Explorando os campos do sensível, Pablo Mufarrej com a Sessão 397 conduz, por meio de improvisações culinárias, um mergulho na ambiência densa do cheiro da maniçoba, comida típica da região feita com a folha da mandioca-brava, planta tóxica consumível apenas após 7 dias de cozimento. Em rito performático, o artista transporta para dentro do espaço a atmosfera da feira do Ver-o-Peso e compartilha com o público aromas e sabores da cidade. Também imbuído pelo universo das feiras, José Viana traz a matéria viva que se alastra com a ação do tempo em uma pirâmide de pupunhas. A instalação de Lucas Gouvêa e Wellington Romário convida ao imaginário popular entre crendices e feitiços de ervas em espaço vivo inspirado no Museu do Marajó.

No bar, o ruído da televisão mimetiza sua constância em muitos dos cenários de Belém. Em proposta colaborativa, a livre-apropriação de vídeos amadores e conteúdos encontrados na internet são atravessados por fragmentos da Lanterna dos Afogados de Armando Queiroz. Miguel Chikaoka oferece suas cuias ao visitante como grandes olhos que vêem imagens invertidas, as câmeras obscuras de Loading… Nos passos que se seguem, o artista convida o espectador a fotografar seu próprio olho e depois perfurá-lo com um espinho de tucumã, em ação simbólica de Exercícios para Hagakure II.

Em reflexão sobre a exploração da paisagem, Paula Sampaio, entre voz e imagem, recria, em sua instalação Rotas, narrativas oriundas da Transamazônica, enquanto Luciana Magno traz o corpo-paisagem em um só corpo seiva-suor, com Belterra. Entre linhas e palavras, o Estou aqui de Keyla Sobral afirma a presença em e de um território em letras de neon.

A cidade é redesenhada a partir de suas margens com o trabalho de Luís Junior, pintor de tipografia marítima, característica das embarcações da região, deslocando seu traço preciso e as cores dos barcos para a cidade. Todas as ruas, de Marcílio Costa, traz, através da poesia, as 39 ilhas que compõem o arquipélago metropolitano de Belém. Ainda às margens do rio Guamá, Elaine Arruda propõe uma cartografia construída a partir de seu trânsito pela região portuária de Belém onde realiza seus trabalhos.

Alexandre Sequeira traz um trabalho cujo corpo se dá na oralidade de uma fala; já a ação de abertura concretiza-se na doação espontânea de digitais da parte do público para sua Coleção Particular. Véronique Isabelle borra as fronteiras da curadoria para intervir no espaço junto com os artistas. O desfecho sintetiza Nando Lima, que, por registros de imagens produzidas ao longo da montagem da exposição, propõe uma videoperformance.

No espaço expositivo, gerações convivem e se atravessam. Pessoas, paisagens e imagens se permeiam, afetam-se, imbricam-se, incorporam-se, alastram-se.

por, Camila Fialho e Véronique Isabelle
São Paulo, junho de 2015.

artistas: Alexandre Sequeira, Armando Queiroz, Elaine Arruda, José Viana, Keyla Sobral, Lucas Gouvêa e Wellington Romário, Luciana Magno, Luis Júnior, Marcilio Costa, Miguel Chikaoka, Nando Lima, Pablo Mufarrej e Paula Sampaio.   

https://atelie397.com/alastramento-abertura/